O Prof. Ednelson Santos é Mestre em Administração de Empresas pelo IBMEC-RJ, tendo desenvolvido pesquisa de mestrado em que estudava a Gestão Educacional e mais particularmente a Comunicação para atração de alunos realizada pelas instituições de ensino da rede privada.

É Consultor de empresas especializado em Gestão Educacional e professor universitário lecionando as disciplinas Administração da Produção, Teorias de Administração, Responsabilidade Social e Gestão de Serviços e Processos. É graduado em Administração de Empresas e atuou por cerca de oito anos no mercado editorial de livros didáticos, na área comercial.

ENTREVISTA COM O Prof. EDNELSON SANTOS

Prof. André Pestana: Nos últimos 20 anos as organizações educacionais de toda ordem sofreram mudanças significativas em sua estrutura, competência e gerenciamento. Na sua opinião, quais são os principais desafios do Gestor de Ensino contemporâneo?

Prof. Ednelson Santos: A profissionalização da gestão das Instituições de Ensino é o primeiro passo para quem pretende sobreviver em longo prazo.Durante o tempo em que desenvolvi minha dissertação de mestrado, tive a oportunidade de conhecer um grande número de instituições de ensino, cerca de 300, e me chamava a atenção o amadorismo com que suas questões gerenciais eram enfrentadas, costumo brincar dizendo que era o “estilo de gestão bombeiro”, pois todas as ações somente visavam apagar incêndios.Na verdade, a “gestão bombeiro” pode ser considerada a ausência de gestão, já que um dos pontos básicos de qualquer forma de gestão é o controle e apagar incêndios continuamente é sinal de descontrole. Por outro lado, não se pode deixar de falar da capacidade de trabalhar,da sensibilidade e da devoção com que os atuais gestores educacionais realizam seu trabalho e isso também pude constatar convivendo com eles durante todo estes anos.Acho que o caminho é capacitar estes profissionais a utilizar com eficiência as ferramentas oferecidas pela Administração.Não há ninguém melhor do que as próprias pessoas que estão na escola atualmente para realizar esta transformação.

A complicação existente neste processo de profissionalização é decorrente, em minha opinião, da dificuldade que os gestores educacionais têm em entender o negócio educação sob o ponto de vista gerencial, dificuldade até certo ponto natural se levarmos em consideração que Instituições de Ensino possuem uma série de particularidades que as diferem da maioria das Organizações que atuam em outros setores.O problema é que esta passou a ser uma questão de sobrevivência e já não se pode perder muito tempo.

Prof. André Pestana: Quais são as principais diferenças que podemos apontar entre Gestão Educacional e Gestão Empresarial?

Prof. Ednelson Santos: Enquanto escrevia a dissertação, tive a oportunidade de olhar as escolas com profundidade e posso tranqüilamente afirmar que uma escola, qualquer que seja ela, é um lugar especial.Não conheço outro tipo de organização empresarial capaz de oferecer o que uma escola oferece; alguém que vai a um salão de beleza sairá mais bonito após receber o serviço oferecido pelo salão, em uma loja de roupas, em uma boite, em um consultório médico, em um supermercado, os resultados serão sempre pontuais.A escola é a organização que tem como resultado de seu serviço, um ser humano melhor, alguém mais completo, socialmente, academicamente e pessoalmente.Os resultados do processo educacional serão sempre para toda a vida e isto dá à gestão educacional uma enorme responsabilidade. Acho que deve-se considerar também a natureza longitudinal do serviço educacional , já que não há conhecimento de outros serviços que durem tanto tempo ( até quinze anos, da educação infantil ao ensino médio) , o que pode possibilitar mudanças de expectativas dos clientes (pais , alunos) em relação ao que oferece a escola, ou seja , as pessoas mudam, a sociedade muda, as escolas, sem perder sua identidade, também não podem deixar de mudar e este é um processo complicado.

A qualidade de um serviço educacional será conseqüência das ações da instituição e das ações de seus clientes, ou seja, a melhor estrutura e os melhores professores só obterão os melhores resultados se houver comprometimento dos clientes da escola.Esta é uma questão dramática para o gestor educacional porque neste momento o controle sobre o serviço prestado e sobre seu resultado deixa de ser somente da escola.É possível desenvolver estratégias para lidar com esta questão, mas cada escola deve estabelecer soluções específicas à sua realidade,

Um terceiro fator que torna especial a Gestão Educacional é a quantidade de públicos que possui uma escola.Se considerarmos público todo grupo interessado nos resultados de uma organização, para as escolas podemos citar entre outros, os responsáveis, os alunos, a sociedade, o governo, as empresas e a comunidade.A gestão educacional deve ter estratégias para se relacionar com cada um desses públicos.

Prof. André Pestana: Todos nós sabemos que a escola é uma empresa. e como empresa prestadora de serviços, sofre os efeitos da globalização, da competitividade e da concorrência. As escolas estão preparadas para esses desafios?

Prof. Ednelson Santos: Este é um momento muito delicado para as escolas.Apesar do tamanho do mercado educacional brasileiro e das possibilidades daí decorrentes, muitas escolas devem ficar pelo caminho, não porque falham em educar, mas porque não conseguem se adaptar a um contexto em que a capacidade de educar deve ser suportada por uma gestão profissional, cuidadosa e consciente dos rumos que a escola deva tomar.A compra de soluções prontas também é um caminho perigoso, já que como não existem duas organizações idênticas, dificilmente práticas de sucesso em uma escola proporcionarão os mesmos resultados em outra escola.

Prof. André Pestana: A parceria vem sendo apontada como uma poderosa ferramenta para alavancar novas oportunidades de negócios no setor educacional privado. Como você avalia esse instrumento e de que maneira a parceria deve ser encarada pelos Gestores Educacionais?

Prof. Ednelson Santos: As parcerias sem dúvida são uma excelente caminho, mas boas parcerias somente podem ser construídas se a escola compreender a si própria.Acho que hoje, antes de pensar em parcerias, as escolas devem fazer um longo exercício de reflexão, devem entender o seu papel em sua comunidade, suas possibilidades e como seus clientes a percebem.Devem examinar com bastante franqueza o que são capazes de oferecer e o que não são capazes de oferecer, devem examinar com profundidade o que desejam seus clientes atuais e futuros. Somente assim parcerias realmente vantajosas para os dois lados poderão ser construídas.A quantidade de demandas e informações que vem do ambiente externo em direção às escolas tem causado uma certa miopia que impede as escolas de pensarem na sua natureza e em suas vocações.

Prof. André Pestana: Como você analisa a atual comunicação para atração de alunos das escolas?

Prof. Ednelson Santos: Em minha dissertação de mestrado pude perceber que grande parte das escolas limita suas ações para atração à comunicação de massa.Este é um erro perigoso já que pessoas que consomem serviços, e as escolas são organizações de serviços, valorizam muito mais as fontes pessoais de informação.Existem algumas formas de se individualizar o contato com o possível aluno e com seu responsável, torná-lo mais pessoal, e as escolas em sua maioria não têm atentado para isso.Durante as entrevistas que realizei pude constatar que boa parte dos esforços de comunicação é realizada nos períodos que antecedem as matrículas, e desta forma, o erro torna-se maior ainda.O período de matrículas é importante demais para a escola, é o único evento de vendas que a escola tem durante todo o ano, passado este momento, não se pode fazer muitas coisas.A campanha de matrículas deve acontecer durante todo o ano, mês a mês, mas isso somente é possível quando a escola tem consciência de qual segmento ela está pronta para atender e de qual a melhor forma de se comunicar com este segmento.Este pensamento de comunicação segmentada por si só, torna a comunicação de massa um caminho inadequado.Algumas instituições já se aperceberam disso e vem tendo resultados animadores.

E-mail: ednsantos@terra.com.br