O Prof. Marco Aurélio vem se destacando no segmento educacional como uma das mais influentes vozes da área pedagógica.

Mestre em Psicologia Social; Psicopedagogo, Especialista em problemas de Aprendizagem, Pedagogo, Professor de Ed. Física. Professor De cursos de graduação e pós graduação em Educação.


Nesta entrevista ele aborda, através do olhar do professor, os desafios, obstáculos e principalmente o papel que esse profissional precisa adotar para enfrentar esse cenário de permanente transformações.

ENTREVISTA COM O Prof. MARCO AURÉLIO

Prof. André Pestana - Como Você avalia o nível dos nossos professores? Falta formação mínima?

Prof. Marco Aurélio Togatlian - Este é um problema histórico que vem se arrastando sem uma solução definitiva e que compromete a qualidade do trabalho pedagógico em todos os níveis. O próprio “status” de professor tão valorizado em outros tempos têm sido gradativamente dilapidado pelos próprios professores, que cada vez mais mal preparados, continuam a “dar aulas”. Todavia, este problema deve ser examinado por todos os aspectos possíveis, vejamos alguns: passamos por um momento de transição na educação brasileira, desde a publicação da nova LDB(9394/1996) que instituiu a década da educação, observa-se um grande aumento na procura pelos cursos superiores, pois a lei em sua redação inicial, previa que todos os professores deveriam possuir curso superior até o ano de 2007. Este fato certamente contribuiu para a corrida ao ensino superior e os cursos de licenciaturas e pedagogia foram muito procurados. Hoje temos 62% de professores com nível superior e 38% com o ensino médio apenas(UNESCO, 2004). O professor neste momento de mudanças no quadro educacional brasileiro, passa por uma situação atípica: acostumado a promover mudanças em seus alunos, agora o professor se vê em ambos os lados de uma mesma situação. Ao mesmo tempo em que precisa continuar a promover as reflexões necessárias para o sucesso do processo de aprendizagem, também é obrigado a refletir sobre suas próprias práticas que são, em muitos casos, responsáveis pelo fracasso escolar. Em resumo: ao estudar para se qualificar, o professor percebe que deve mudar sua própria conduta e, convenhamos, isso leva algum tempo. Outro aspecto que deve ser examinado detalhadamente é a função do professor em sala de aula. É indispensável que o professor seja um estudioso, uma espécie de cientista que investiga o comportamento humano durante suas aulas. Raros são os professores que podem afirmar que seus alunos aprenderam o que acabaram de explicar. Ao serem questionados sobre o assunto, apontam a prova ou os testes como elemento de comprovação da aprendizagem, quando todos os educadores deveriam saber que a aprendizagem se verifica através da mudança de comportamento e só através de tal observação pode ser constatada, ou seja, é muito provável que os professores continuem satisfeitos com o simples fato de seus alunos decorarem todo o conhecimento que lhes foi transmitido e ao reproduzirem tal conhecimento nas provas, satisfazem as exigências do professor e estão “autorizados” a esquecer e não mais tocarem nos assuntos.

Precisamos, então, estudar mais os aspectos que não são necessariamente técnicos ou específicos de cada área do conhecimento ou disciplina, mas essencialmente, as questões que são transversais a todas as áreas e disciplinas como a psicologia da aprendizagem, a ética e o conhecimento socialmente útil.

Em relação a segunda parte da sua pergunta, como já mencionei anteriormente os professores têm buscado a formação mínima, porém, esta busca não retrata a qualidade do ensino em sala de aula.

Prof. André Pestana - Na sua opinião, de que maneira as Universidades e Centros Acadêmicos podem aproveitar os profissionais com larga experiência prática em suas áreas de atuação e pouca formação acadêmica ? Os critérios adotados pelo MEC contemplam a realidade do que o nosso país precisa?

Prof. Marco Aurélio Togatlian - Acho que isso já é feito. As universidades podem ter em seu corpo docente até 25% de professores com especialização(latu sensu) e o restante precisa ter a titulação de mestre ou de doutor. Apesar de reconhecer que a titulação nem sempre significa qualidade, acredito que os critérios adotados pelo MEC visam a melhoria da qualidade do ensino superior. Penso que em alguns cursos específicos, o percentual poderia ser repensado, pois não temos no Brasil cursos de Doutorado e Mestrado em todas as áreas. Isso tem feito com que o professor busque qualquer curso só para ter o título de Mestre e cumprir com as exigências da legislação.

Prof. André Pestana - É possível combinar lucro e educação? Qual a importância da iniciativa privada no atual cenário da educação brasileira ?

Prof. Marco Aurélio Togatlian - As melhores e mais bem sucedidas iniciativas na área da educação têm origem no ensino privado. A iniciativa privada não é mais uma opção no cenário da educação brasileira, é uma necessidade percebida por todos. Do ponto de vista quantitativo as escolas e universidades públicas não seriam capazes de comportar a demanda atual de alunos. Do ponto de vista qualitativo, a escola e a universidade particular constituem-se na saída que pais e estudantes têm encontrado na busca por um ensino de qualidade. Neste aspecto, gostaria de chamar a atenção para um detalhe que considero fundamental na avaliação das instituições de ensino superior: trata-se do mito que perpetua a universidade pública como escola de excelência. Infelizmente, essa não é a realidade em nenhuma circunstância. Basta examinarmos as condições físicas e os problemas que atravessam os docentes destas instituições que a realidade vêm à tona. Mesmo a avaliação do ensino superior (o provão) não demonstrava a qualidade do ensino destas instituições. Explico: as altas médias obtidas pelos alunos das instituições públicas não significam que o ensino oferecido é de qualidade, pelo simples fato dos alunos que lá estão se constituírem nos melhores, pois conseguiram entrar para uma universidade pública. O caso brasileiro é uma espécie de “inversão do funil” pois quem precisa mais e pode menos não tem acesso ao ensino público. Quem já viveu o ensino público pode afirmar que é preciso ser um pouco “auto-didata” para se sair bem, portanto podemos creditar o sucesso das instituições públicas no antigo provão muito mais à capacidade de seus alunos do que à excelência do ensino.

Prof. André Pestana - Agora uma pergunta pessoal. Você é casado com uma educadora e pai. Quais são os maiores desafios que um casal de educadores enfrenta no dia-a-dia com os filhos?

Prof. Marco Aurélio Togatlian - Tentar explicar as contradições às quais são submetidas as crianças nas diversas instâncias de convívio, inclusive nas escolas é o maior desafio. Explicar as injustiças, os preconceitos e outras questões complicadas do nosso dia a dia é uma tarefa complicada para todos os pais.

E-mail: togatlian@uol.com.br